A arte de viver é um tema que me fascina. Sobre ela sabemos sempre muito pouco. Há sempre quem saiba mais. O filósofo Nietzsche, esse decano da arte de viver, deixou-nos uma pérola preciosa sobre esta arte que é a Origem da Tragédia escrita há cento e poucos anos. Eu sei que a maioria das pessoas não gosta deste filósofo, pelo menos na cultura ocidental. É tido como ateu. Tenho muitas dúvidas se Nietzsche era ateu. Um filólogo dos clássicos ateu? Ninguém deveria dizer que ele é ateu pelo ouvir dizer. O ouvir dizer não constitui saber epistémico. Convém lê-lo e lê-lo sem pressupostos. Faz parte da honestidade intelectual. Filho e neto de lideres religiosos. (os principais líderes religiosos em Portugal não têm filhos. Curioso. Curioso e dionisíaco). O pai morreu quando tinha cinco anos de idade. Doloroso. Muito doloroso. Sabe-se lá se o zaratustra de que fala, o desejado de que fala, o super-homem a que aspira, não será a saudade do pai que perdeu numa idade em que a razão não é relacional. Uma pessoa que diz: não é que eu não acredite em Deus; Deus é que não acredita em mim, provavelmente não será ateu. E se é sabe sê-lo. Não quero falar do AntiCristo, nem da Aurora, nem do Assim Falava Zaratustra, nem do Crepúsculo dos Ídolos, nem Para Além do Bem e do Mal, nem do Humano Demasiado Humano. Prefiro a Origem da Tragédia porque ajuda a pensar e ajudar a pensar é ajudar a viver. Quando o filósofo escreveu esta obra pretendia chamar a atenção para a incapacidade que os homens e mulheres tinham para viver a simbiose das duas naturezas humanas. Antes de Sócrates vivia-se a união dos dois espíritos - o dionisíaco e o apolíneo. As duas naturezas com as quais nascemos. As grandes festas a dionísios eram vividas até à exaustão. O culto a Apolo igualmente. Vivia-se neste dualismo. O homem é um ser dual. Tem tendência para o prazer (dionísios) e tem tendência para o mais racional (apolíneo). Instintos e razão andavam de braço dado. Depois de Sócrates e depois mais tarde com o Judaismo-Cristianismo, as duas naturezas separaram-se. E com esta obra o filósofo pretende fazer renascer o espírito da tragédia. Unir as duas naturezas. Apolo simboliza o espírito plástico, é o deus da clareza, da medida, da forma, do dia. Apolo aparece como paradigma do divino, ele representa a individuação. O apolíneo tem o sentido do pudor e por isso não pode dizer as coisas directamente. O apolíneo vive mais da aparência e da imagem. O homem apolíneo preocupa-se mais com a forma, com a imagem. com o que as pessoas pensam dele. Muitas vezes torna-se no que não é. Uma proposição forte em Nietzsche é: torna-te no que és. Era sabedor de que vulgarmente tornamo-nos no que não somos. Procuramos esconder a nossa verdadeira essência. Ao homem apolíneo causa-lhe impressão a noite. O depois da meia-noite é uma espécie de diabolização. Daí os nossos educadores dizerem muitas vezes aos filhos: Não entres em casa depois da meia-noite. Vá-se lá saber porquê... É mais eclesiástico. É mais litúrgico. Vive modelado por padrões mais fixos. Lida mal com a diferença, com a diversidade. É mais circular. É mais peripatético. Até nas coisas mais simples da vida se nota o apolíneo. Veste-se geralmente da mesma maneira. É muito complicado para um apolíneo deixar o fato e a gravata independentemente do espaço geográfico e da temperatura. Andar com a camisa do lado de fora para ele, ai que horror. Andar despenteado para ele é uma complicação para aquela cabeça. E eu costumo dizer dionisiacamente que as pessoas deveriam ir ao cabeleireiro também para se despentearem. A pessoa despenteada é menos artificial. Usar cabelos compridos e repentinamente rapar o cabelo com máquina zero é praticamente inconcebível. Frequenta geralmente os mesmos espaços. Tem ideias muito estáticas sobre o espaço sagrado e o profano. Prefere o proibitivo ao permissivo. É menos brincalhão e quando brinca não o faz com coisas sérias porque pode ser castigado. Geralmente não lê livros que provoquem um confronto dialéctico. Quando lê livros por norma não os sublinha e se sublinha é com um cuidado desmedido. Não diz uma asneira mas às vezes faz cada asneira com efeitos gravosos e impensáveis. Quando alguém conta uma anedota mais ousada pôe a cabeça em baixo e se for no átrio duma igreja fica mesmo aflito. Ele não concebe estar no sábado à noite num bar, discoteca e de manhã estar numa congregação. Talvez, as tais filosofias de velhas e velhos que para nada aproveita ( eu disse talvez..). É mais melancólico. É maniqueísta. Os opostos são incompatíveis. Isto mesmo. Não há harmonia nos opostos para ele. Mas o homem, a mulher dionisíaca, é o oposto. Gosta mais da noite, menos responsável, mais leve, anda por cá mais para viver o hoje (pois o dia de amanhã ninguém o viu...) e menos para pensar. Platão dizia: pensa. Nietzsche diz: vive. Vive mais para a prazerologia. Dança, faz bem dançar. Bate palmas, faz bem. Canta, assobia ( se há coisas que gosto de ver é uma pessoa assobiar. Tem uma graça imensa.). Às vezes chego ao meu local de trabalho e está um colega ao computador mas a assobiar. E eu digo-lhe: que fixe. Já não há quem assobie. É que eu também entro no trabalho a assobiar. Ele é de artes, só podia ser. Eu sou de filosofia, só podia ser. Claro que geralmente as pessoas da música, das artes, da pintura, do teatro, da filosofia são mais dionisíacos. Esta coisa de assobiar não é só para os pedreiros. Juízes assobiem. Médicos assobiem. Engenheiros assobiem. Advogados assobiem. Professores assobiem. Padres e pastores assobiem. Freiras assobiem. Assim imprimem um pouco de dionísios à vida. Não liguemos tanto à imagem. Liguemos mais à não-imagem. Não nos preocupemos tanto com o que dizem que nós somos mas com aquilo que na realidade somos. Alguém disse que o homem mais puro é o homem nu. Pois, o nu não esconde nada. E nós andamos a esconder tanta coisa. Apolíneos demasiado apolíneos. Porque não conciliar os apostos? É que não há só o dia para os apolíneos e só a noite para os dionisíacos. Também há o crepúsculo. Sim o crepúsculo das coisas que merece ser pensado... O espírito apolíneo garalmente cansa-se a ele próprio e cansa os outros porque como ele é mais ortodoxo não vê com bons olhos a heteroxia dos outros. O educador apolíneo como que obriga o educando a segui-lo. Os meus pais não tinham instrução mas não eram analfabetos. A minha mãe era muito mais apolínea. I. não faças isso porque é proibido, é interdito. O meu pai muito mais dionisíaco. Tão dionisíaco que aos noventa anos quando lhe perguntaram no lar: Senhor M. como está? ao que ele respondeu: eu estou novinho. Mas o que ele queria dizer era "no vinho". Isto é tipicamente dionisíaco. E eu tive a benesse de ter uma educação nesta união dos opostos. Sim, um pouco de néctar de baco ou néctar de dionísios fica bem desde que não seja bebido às escondidas. Fica muito bem a graça dionísiaca para esbater o sério, o demasiadamente apolíneo, o breu da vida. Certo dia um amigo meu, afectivamente livre, disse-me que se aproximou de uma senhora também livre que conhecia empiricamente e perguntou-lhe se ela não queria de vez em quando jantar com ele, ir a um bar, ir a uma festa. Ao que ela respondeu: se tiver alguém que lhe faça isso!... e ele interrogou-se: isso o quê? Expliquei-lhe que a nossa sociedade é tipicamente apolínea e que na África ou no Brasil certamente essa senhora aceitaria o convite tanto mais que se conheciam minimamente. Os apolíneos são tipicamente assim. Desconfiam de tudo o que não está nos canones. Tenho uma leve tendência para o dionísiaco mas acho que ambos os espíritos devem conviver e seria razoável evitar o excessivamente apolíneo e o excessivamente dionisíaco ( lá está, por causa do crepúsculo). E não se trata aqui de questão de carácter. Há pessoas apolíneas exemplares no carácter. Há pessoas dionisíacas exemplares no carácter. É uma questão de modo de viver. Somos uma cultura marcadamente apolínea ou marcadamente judaico-cristã ou pós-socrática. As pessoas não brincam. Brincar é para as crianças. E qual é o mal? Sim, pois, as crianças são muito mais dionisíacas. A sua verdade. a sua espontâneidade, a sua pureza. A sua sinceridade. Elas não são moralistas, nem puritanas, sem sofismas. Gostamos ou não gostamos delas? Dão encanto à família. As pessoas riem pouco. Isto não está para risos - dizem. As pessoas não cantam e esquecem que quem canta seus males espanta. As pessoas não assobiam, as pessoas não dizem um piropo com graça. Isso é para os pedreiros. Imprimir ao apolíneo demasiado apolíneo uma pitada de dionísios (não a parte bárbara de dionísios) traduzir-se-ia numa sociedade mais greco-judaico-cristã e a vida passa a ter mais encanto. E escrevo tudo isto porque o definhar da existência corre celere para todos nós. Crentes, ateus, cristãos, deístas, budistas, islamitas, cépticos, bons e maus. Sim, inexoravelmente e incompreensivelmente o definhar da existência não passa na periferia de ninguém. E a errância e inerrância joga-se no viver apolineamente ou dionisiacamente. Há uma tendência natural para recalcar a nossa parte dionisíaca mas não é saudável recalcar aquilo com que nascemos. Escrevi este texto porque gosto por demais das obras literárias que nos ajudam a viver. O livro dos salmos, o livro do eclesiastes, dos provérbios de Salomão, o cântico dos cânticos ajudam a saber viver. Sim o cântico dos cânticos é lindíssimo desde que haja rigor conceptual na sua interpretação. ( refiro-me à sua carga de erotismo puro que não faz mal a ninguém). E a Origem da Tragédia também. ( tudo obras que não dispensam leitura obrigatória e não pode ser em diagonal). Escrevi este texto porque viver tendencialmente só num dos espíritos é viver num plano inclinado e escorregadio. Escrevi porque é saudável a harmonia dos opostos e é possível e desejável. Um amigo meu contou-me que passou uma noite de sábado nuns bares com uns amigos e no domingo foi dirigir um coral numa Igreja. Cá está a harmonia possível. Durante a noite usou a liberdade dionisíaca para se divertir e no domingo usou a responsabilidade apolínea para cumprir o seu dever. E não prejudicou ninguém. Que lindo ser apolíneo no pensar e dionísios no viver! É de louvar esta atitude. Escrevi este texto porque gosto da maneira dionisíaca das crianças viverem. Elas não cogitam o mal durante a noite nem têm calculismos contabilísticos. Gosto do carpe diem que elas imprimem à vida: qual verbo que canta e encanta; o encanto do seu brincar, a sua leveza, a sua intemporalidade, a sua inocência, a sua amoralidade natural. Elas encarnam o que de mais saudável há no espírito dionisíaco, o espírito de festa e assim a vida tem mais encanto e não é só na hora da despedida...
nota: não usei parágrafos intencionalmente
Concordo com o filosofo Ismael!
ResponderEliminarApolíneos no pensar e dionísios no viver!
Há que aproveitar os momentos da vida!
Mas, cuidado com a hipocrisia em que podemos incorrer, pois o pensamento tem que estar de acordo com o nosso viver!!